O que é o existencialismo libertário?

Muitas pessoas costumam pensar que o existencialismo e uma filosofia de livre mercado não se intersectam. Será mesmo? William Irwin pensa que não, e em seu livro “O Existencialista de Livre Mercado, capitalismo sem consumismo” ele vai tentar mostrar que Sartre não deveria ter sido Marxista, mas um libertário. Isso acontece porque tanto para as filosofias libertárias quanto para as existencialistas há uma visível importância dada ao indivíduo e a sua liberdade para se construir.

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Irwin se coloca em uma posição complicada. Contra a grande parte do movimento libertário, ele defende um libertarianismo amoral e existencialista. Ou seja, ele nega que existam valores morais objetivos e nega que o mundo ou as pessoas estejam aqui para cumprir um propósito. Para que ele consiga convencer que tais doutrinas podem se dar bem juntas, ele precisa enfrentar diversos desafios, o mais claro e recorrente seria, como termos uma regra de conduta em um mundo onde não existe moral?

Dostoievski uma vez disse “Sem deus não existe, tudo é permitido”. Sartre respondeu “Tudo é permitido, e agora?” e então a questão continua… E agora?

O Irwin nos dá um mundo onde não possuímos um norte, mas no qual nós temos que construir um. Muitos dizem que o ser humano deve buscar satisfazer a vontade de deus, e que quando não, deve ao menos buscar fazer o que é moralmente certo, e que quando não, deve ao buscar seguir as leis locais e reconhecer a legitimidade governo. O Irwin rejeita Deus, a moralidade objetiva, e o grande estado. O desafio de Irwin é colocar algo que nos guie por esta escuridão e que nos conduza a uma defesa de uma sociedade livre. Nietzsche, considerado por muitos como um dos pais do existencialismo, disse que tínhamos matado Deus e perguntou o que faríamos… Agora matamos Deus, matamos o certo e matamos o estado.

Sobre a sua posição um tanto desconfortável nessa situação, Irwin escreve:

“Eu estou sozinho em uma intersecção de um diagrama de Venn, entre seus círculos representando os filósofos do livre mercado e os filósofos existencialistas. Na verdade o espaço é ainda mais solitário que esse, porque eu sou um anti-realista moral além de ser um libertário e um existencialista. Então há na verdade três círculos. Mesmo que historicamente tenham havido alguns existencialistas que argumentavam por um anti-realismo moral, eu não conheço nenhum vivo hoje exceto eu. E eu não conheço outros libertários que sejam anti-realistas morais. Então eu me encontro onde esses três círculos se intersectam, e eu me preocupo que não seja um diagrama de Venn que eu tenho desenhado na minha cabeça, mas sim um alvo nas minhas costas. Eu reconheço que eu não tenho uma visão popular, mas não acho que eu seja terminantemente único. Minhas conjunções são logicamente possíveis e, eu espero, filosoficamente atrativas.”

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Mais longe que isso, Irwin pretende dar uma resposta a uma das maiores preocupações da esquerda, o consumismo desenfreado da sociedade. Irwin argumenta que é possível defender um sistema de livre mercado sem uma sociedade consumista, e a sua arma para isso é o existencialismo.

Se o Irwin pretende nos mostrar que algo como um existencialismo libertário é possível, ele precisa primeiramente dar uma boa definição do que seria o existencialismo. Esta tarefa, embora pareça não é fácil, os grandes filósofos existencialistas não costumavam se definir desta forma e alguns até rejeitaram o termo. Sabe-se que Sarte, Camus e Beauvoir eram existencialistas… Mas como prover uma definição de existencialismo que compreenda corretamente a doutrina é algo que gera muito debate. Irwin, portanto, parte para uma abordagem mais inclusiva, ou seja, ao invés de procurar uma definição que delimite onde começa e onde termina o existencialismo, ao invés de dar as condições mínimas necessárias para que alguém seja chamado de existencialista, ele prefere definir levando em consideração uma miríade de características que os existencialistas costumam ter. A sua definição de existencialismo está mais para uma definição paradigmática, no sentido que ele se preocupa bem mais em descrever como um existencialista viria o mundo do que em dar um receituário para ser um. Irwin, então define o existencialismo da seguinte forma:

“O existencialismo é uma filosofia que reage a um mundo aparentemente absurdo ou sem sentido instigando o indivíduo a superar a alienação, opressão e o desespero através da liberdade e da auto-criação ao ponto em que se torna uma pessoa genuína.”

Para entender esta definição em sua plenitude, precisamos entrar na mente de um existencialista e descobrir o que significa para ele conceitos tais como “absurdo”, “indivíduo”, “desespero”, “liberdade” e “auto-criação”.  Estamos aqui entrando em um território não muito conhecido entre os libertários, e para que se faça uma leitura adequada do que se está querendo passar, é necessário um determinado cuidado e hermenêutica apurada.

Para o existencialista, o “absurdo” do mundo é o seu vazio de propósito e a indeterminação do homem como um ser dotado de essência. Quando o homem se vê sem ter para onde ir e o mundo da mesma forma, ele vê isso como um absurdo. Mas um ponto interessante do existencialismo é que ele não vê esse absurdo como algo inerente ao mundo, mas sim como um fenômeno psicológico do homem, e este fenômeno ocorre apenas por causa das altas expectativas do homem quanto ao mundo e quanto a ele mesmo, o desejo do homem que tudo tenham um propósito e que tudo faça sentido, cai por terra quando defrontado com a realidade despropositada do mundo, e o choque é tão grande que para o homem, isto figura como um absurdo.. O mundo não é absurdo, a absurdidade é apenas aparente, e esta mesma absurdidade é passível de ir embora, contanto que o homem saiba como lidar adequadamente com um mundo inerentemente sem propósito e com o ser inerentemente sem propósito que ele é.

Esse mundo em si mesmo não é razoável: é tudo o que se pode dizer a respeito. Mas o que é absurdo é o confronto entre esse irracional e esse desejo apaixonado de clareza cujo apelo ressoa no mais profundo do homem. O absurdo depende tanto do homem quanto do mundo. É, no momento, o único laço entre os dois. Cola-os um ao outro como só o ódio pode fundir os seres.” Camus

Caso o homem não consiga, ele entra no que se chama de “desespero”,

“o sentimento de que a vida não está mais funcionando bem para você e, dada a pessoa que você é, é impossível que as coisas funcionem para você; que a vida que vale a pena viver é, no seu caso, literalmente impossível” Hubert Dreyfus

A liberdade para o existencialista também é diferente da liberdade como é vista normalmente para os libertários. Aqui, a liberdade não é meramente fazer o que bem entender do que é seu, contanto que não invada o que é do outro. A liberdade no existencialismo é de outro tipo, ela é uma liberdade que nenhuma barreira pode tirar, é uma liberdade ontológica, é a liberdade de querer e de tentar. O existencialismo distingue entre dois tipos de liberdade, a liberdade ontológica e a liberdade prática, por mais que possam haver obstáculos no mundo que limitem a nossa liberdade prática, o ser humano sempre é livre pra definir o que ele quer fazer o como o mundo exterior o afeta.

Como diria Sartre “O ambiente pode agir no sujeito apenas na exata extensão em que ele o compreende; isto é, o transforma em uma situação”

Portanto, o existencialismo é uma filosofia que busca reagir a este estado humano de perplexidade, de absurdo, frente a um mundo sem propósito. E ao contrário do que possamos imaginar, o existencialismo não busca fazer isso instigando as pessoas a se juntarem em grupos ou a se conformar com o absurdo, mas sim através de um fortalecimento do indivíduo, que deve criar o seu próprio caminho em rumo a autenticidade.

“O existencialismo fala para o indivíduo ao invés do grupo. Lidar com o absurdo e a falta de sentido é um esforço individual. O indivíduo busca superar a alienação, o senso de ser o “outro”, de ser excluído, de não estar em casa. A resposta existencialista para a alienação não é se juntar a um grupo, mas sim criar-se a si mesmo. O indivíduo busca superar a opressão, o sentimento de que outros estão o colocando para baixo e o controlando. Mais uma vez, a resposta existencialista não é se juntar aos opressores, nem é necessariamente se juntar com outros contra os opressores. É se recusar a ser oprimido” Irwin

Podemos ver, então que o existencialismo é uma filosofia, no seu cerne, individualista. É uma filosofia que, apresentada desta forma, encontra suas semelhanças com os escritos de John Stuart Mill e de Wilhelm Von Humboldt, que já apontavam para a importância da individualidade na construção de uma sociedade. O existencialista é aquele que possui uma aversão a ser caracterizado pelos outros e que não se intimida pela falta de caracterização inata, é aquele que busca criar em si mesmo uma pessoa única, uma pessoa autêntica.

Em 1859, John Stuart Mill escreveu:

“É desejável, em suma, que, nas coisas que não digam respeito primariamente aos outros, a individualidade se possa afirmar. Onde a norma de conduta não é o próprio caráter, mas as tradições e costumes alheios, falta um dos principais ingredientes da felicidade humana, e, de modo completo, o principal ingrediente do progresso individual e social.”

William Irwin, sobre o existencialismo, escreve:

“O existencialismo busca contra-atacar, fazer um espaço para indivíduos únicos . A massa tenta te sugar pra dentro. Não há uma grande conspiração para te colocar em conformidade, mas a pressão da massa é grande de toda forma. E essa é a razão pela qual nós devemos resistir e pensar por nós mesmos à parte do grupo”.

John Stuart Mill escreve

“Aquele que deixa o mundo, ou a parte do mundo a que pertence, escolher o seu plano cie vida em seu lugar, não necessita de nenhuma faculdade a mais da imitação simiesca. Aquele que escolhe por si o próprio plano, emprega todas as suas faculdades. Deve usar a observação para ver, o raciocínio e o juízo para prever, a atividade para colher materiais de decisão, a discriminação para decidir, e, quando há decidido, a firmeza e o auto-controle para se conservar fiel à decisão deliberada. E essas qualidades, ele as requer e exercita na proporção exata em que é ampla a parte da sua conduta determinada de acordo com o próprio juizo e sentimento. Talvez sem qualquer dessas coisas pudesse ele tomar por algum bom caminho e afastar-se da estrada do mal. Qual, porém, seria, então, o seu valor como ser humano. Realmente, importa não só o que é feito, mas também quem o faz. Entre as obras em cujo aperfeiçoamento e embelezamento o homem faz bom emprego da sua vida, está, sem dúvida, o próprio homem.”

William Irwin

“A chave para a superação é a liberdade e a auto-criação. Eu não preciso ser quem eu era ou o que outros disseram que eu era. Ao invés, eu preciso ser uma pessoa genuína, o que os existencialistas chamam de autêntica. Isto quer dizer, alguém que toma responsabilidade por suas próprias ações livres e que criam a si mesmos”

Embora seja improvável que Mill pudesse ser o que conhecemos hoje como existencialista, é interessante perceber o quão esta filosofia se conecta com a ideia de individualidade e de responsabilidade que temos por nós mesmos.

Ainda assim, para que sejamos minimamente convencidos de que o existencialismo consegue ser uma boa filosofia, precisamos que o Irwin nos responda questões um pouco mais complicadas. Sabemos, por exemplo que o livre arbítrio é parte fundamental tanto para o existencialismo quanto para o libertarianismo. Sabemos hoje que o livre-arbítrio é uma questão em aberto não só para a filosofia, desde Demócrito, mas também para a ciência, onde descobertas recentes no campo da neurociência, como o experimento de Libet, veem cada vez mais sugerindo que talvez não tenhamos algo como o livre arbítrio.

Como podemos ter a presunção de queremos nos criar em um mundo determinista?

Um outro ponto importante que o Irwin precisa responder é o caráter pouco científico do existencialismo que assume que o homem é uma tábula rasa, que o mesmo não possui nenhuma predisposição inata. Sabemos que, a luz da biologia evolutiva, este tipo de pensamento não encontra nenhum respaldo e que, certamente, algumas pessoas nascem com uma maior tendência a se darem bem em determinadas áreas do que outras.

Irwin tentará responder esses e outros desafios, e eu vou acompanhar as suas respostas nos próximos textos.

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Sobre Willian Pablo

Nascido em 1997. Poeta e escritor, autor de "O poeta anônimo", o quarto de seus livros de poesia. Centro-direita liberal. Auto-didata em tudo o que o interessa. Amante da retórica e dialética, idealizou e organizou um clube de debates no seu antigo colégio. Fala de si mesmo em terceira pessoa e pretende despejar suas ideias nesse blog.
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