Existencialismo Libertário – Deus, Sentido Da Vida e Livre Arbítrio

No último texto, apresentei o existencialismo, e introduzi a ideia de como o existencialismo pode ser intersectar com uma filosofia de livre mercado. Nesse texto nós aprofundaremos um pouco mais sobre o existencialismo, veremos a importância de Deus para essa filosofia, o que ela pode nos dizer sobre o sentido da vida e como responder ao desafio lançado pelas novas descobertas em relação ao livre arbítrio.

O existencialismo é uma filosofia do indivíduo, é uma filosofia que se opõem a generalização, a predestinação, e a qualquer coisa que une as pessoas numa grande massa homogênea. Por isso mesmo os existencialistas costumam valorizar a literatura, as experiências de cada indivíduo, e as artes. Nenhuma pessoa vê o mundo da mesma forma que outra, se podemos falar de uma coisa que une as pessoas em uma característica é isso. Cada pessoa está presa na sua própria individualidade e vê o mundo de uma forma única, mesmo que ela possa sentir a influência dos outros em meio a interação social. O grande conflito que temos é entre o indivíduo e os outros, o indivíduo querendo se auto-definir e os outros querendo defini-lo pelos seus critérios.

Mais uma vez é impossível não fazer uma relação entre o individualismo existencialista e o liberal clássico de Humboldt. Afinal, Humboldt defendia justamente que o indivíduo deve conservar a sua individualidade ao mesmo tempo que absorve um pouco da individualidade dos outros e transfere a eles um pouco de si. Essa transferência de experiências, entretanto, não deve nem ser tanta que não reste mais nada a ser trocado e nem tão intolerável, a ponto da relação sequer poder se estabelecer. Humboldt defendeu o cultivo de amizades como uma boa arma para a elevação do indivíduo e a superação da alienação.

O existencialismo redireciona os holofotes da filosofia para o indivíduo. Kierkegaard reclamava que a filosofia tinha se tornado uma disciplina tão abstrata que o homem não poderia mais se encontrar nela. A sua grande contribuição foi tentar localizar o individuo no meio disso tudo. A filosofia deve mostrar as pessoas o que é o mundo, mas não pode se esquivar da tarefa de dizer ao homem o que ele deve fazer com o mundo. E com isso não se trata de dar uma receita genérica para a humanidade, mas se trata de, para cada homem, em suas particularidades, dar um caminho a seguir.

Deus

Deus é um fator demasiado importante para os existencialistas, não porque eles tenham sido cristãos, a maior parte não foi, mas porque em Deus dava fundamento para legitimidade das ações, ou melhor dizendo, noções invioláveis de certo e errado.

Quando Nietzsche diz que Deus está morto, ele não diz isso sem preocupação, Nietzsche nos instiga a pensar o que faremos sem deus, como nos recriaremos, como podemos substituir a sua presença no campo da moralidade. Se nós não conseguimos substituir a noção de Deus, o que será de nós?

Muitas pessoas conhecem apenas as 3 palavras que Nietzsche proferiu: Deus Está Morto. Mas para entendermos melhor o que Nietzsche quis dizer, é necessário conhecer a citação completa, e tentar entender a mesma à luz do existencialismo. O que Nietzsche passa nesse trecho nada mais é do que o nascimento do próprio existencialismo.

“Não ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina? – também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos! Como nos consolar, a nós assassinos entre os assassinos? O mais forte e mais sagrado que o mundo até então possuíra sangrou inteiro sob os nossos punhais – quem nos limpará este sangue? Com que água poderíamos nos lavar? Que ritos expiatórios, que jogos sagrados teremos de inventar? A grandeza desse ato não é demasiado grande para nós? Não deveríamos nós mesmo nos tornar deuses, para ao menos parecer dignos dele? Nunca houve um ato maior – e quem vier depois de nós pertencerá, por causa desse ato, a uma história mais elevada que toda a história até então”

É a esse tipo de inquietação que o existencialismo procura instigar, e a resposta para essa inquietação ele coloca nas mãos de cada um de nós e nos convoca a descobrir e a criar.

Irwin, em seu livro, possui uma tarefa bastante complicada, ele vai ter que defender a propriedade privada e a liberdade sem considerar que existe uma moralidade objetiva e que por causa dela nós devemos respeitar esses valores.

O Sentido Da Vida

Se por um lado não possuímos uma moral objetiva na qual podemos fixar os nossos pés, também não possuímos um sentido para a vida. Não estamos aqui por um motivo e as coisas que nos acontecem, não nos acontecem por uma razão. Não temos o propósito de seguir uma palavra divina, de estarmos em harmonia com o universo ou de nos comportarmos conforme a lei natural.

Mas se por um lado não há um sentido da vida, pode haver um sentido na vida. É o sentido na vida o que vai nos guiar e é a sua criação o que faz a vida valer a pena.  Criamos esse sentido ao estabelecermos nossas próprias metas e objetivos, o que queremos. Mas os existencialistas vão mais além… Se o sentido na vida está baseado em nossos próprios objetivos, porque não mudamos os nossos objetivos para os menores possíveis e, por fim, o alcançamos, adquirindo o sentido na vida?

A real é que nós nos importamos tão mais com o processo do que com o resultado. O homem não alcançará a maior satisfação ao conseguir alcançar os seus objetivos, mas sim ao conseguir triunfar, ao conseguir conquistar com propriedade e potência. O sentido na vida é construído por uma narrativa, por uma história, é aquilo no qual, ao alcançarmos, podemos olhar para trás e entender perfeitamente o percurso que traçamos, e nos orgulhar deste percurso.

 

É preciso entender que o objetivo e a trajetória estão conectados. Se você alcança o objetivo sem história, fica difícil apreciar a sua vida, fica difícil se orgulhar de algo ou sentir-se pleno. Por outro lado, se só há história mas não um objetivo, temos um esforço que é despendido em vão e que não confere sentido a coisa alguma. Tanto a trajetória, que Nietzsche chamou de vontade de poder, quanto o resultado, que é designado por cada um de nós, são importantes para conferir um sentido na vida.

Para criarmos um sentido na vida e termos responsabilidade por nós mesmos, é necessário um ingrediente fundamental. Esse ingrediente é o livre arbítrio. O livre arbítrio é o cerne da doutrina existencialista… Mas se assumimos uma visão materialista de mundo, não há espaço para livre arbitrio, tudo é regido pelas leis invioláveis da natureza, que estão dadas. Mesmo os nossos cérebros são regidos por essas leis.

Como diria Laplace

“Devemos, portanto, ver o estado presente do universo como o efeito de seu estado anterior, e como a causa daquele que virá. Uma inteligência que, em qualquer instante dado, soubesse todas as forças pelas quais o mundo natural se move e a posição de cada uma de suas partes componentes, e que tivesse também a capacidade de submeter todos estes dados à análise matemática, poderia encompassar na mesma fórmula os movimento dos maiores objetos do universo e aqueles dos menores átomos; nada seria incerto para ele, e o futuro, assim como o passado estaria presente diante de seus olhos”.

Qual a resposta existencialista para este problema?

Sartre acreditava que o homem tinha livre arbítrio porque o homem não era causado, apenas coisas eram causadas

Mas o fato é que inúmeros estudos neurocientificos nos vem recorrentemente mostrando que nós somos os nossos cérebros e que os nossos cérebros estão sujeitos a vários tipos de alterações químicas e físicas que não dependem de nós.

Irwin nos da uma resposta um tanto inusitada. Ele nos pergunta o que acontece se nós aceitamos que não possuímos livre arbítrio. A resposta é clara, para a maioria de nós, mesmo que aceitemos que o livre arbítrio não existe, nós não transferimos isso para as nossas ações. Irwin enfatiza que mesmo que não acreditemos em livre-arbítrio, costumamos fingir que ele existe, da mesma forma que um Humeano finge que existe uma relação de causa e efeito no mundo, mas se perguntarem a ele, ele certamente dirá que não existe.

 Mas o pior ainda é que se tentarmos transferir para as nossas ações, os resultados serão ou nós nos acomodarmos em uma cadeira e não fazermos nada ou, como alguns estudos já apontaram, realizarmos atitudes pouco éticas, vez que nós não possuímos responsabilidade sob nós mesmos.

Se o livre arbítrio realmente não existe, esses três tipos de reações seriam obviamente já determinados. Mas se o livre arbítrio existe e nós acreditamos que ele não existe, e tomamos tais atitudes, o resultado que temos é que acreditar em algo assim ou será inútil e será danoso a nós mesmos.

Ou seja, se acreditarmos que não existe livre arbítrio, temos algo a perder se ele existir, se não acreditarmos que ele existe, nada temos a perder. Irwin então sugere que façamos uma aposta de Pascal do livre arbítrio. O risco envolvido em acreditar que não existe um livre arbítrio não compensa um livre arbítrio. Assumiremos, portanto, que o livre arbítrio existe.

 

 

Anúncios

Sobre Willian Pablo

Nascido em 1997. Poeta e escritor, autor de "O poeta anônimo", o quarto de seus livros de poesia. Centro-direita liberal. Auto-didata em tudo o que o interessa. Amante da retórica e dialética, idealizou e organizou um clube de debates no seu antigo colégio. Fala de si mesmo em terceira pessoa e pretende despejar suas ideias nesse blog.
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s