O existencialismo libertário – Sem desculpas.

Como vimos até aqui, o existencialista é aquele que busca reagir a um mundo aparentemente absurdo através da liberdade e da criação. É aquele que frente a  adversidade não se desespera e nem se resigna, mas busca ultrapassá-la com criatividade.

Mas há um ponto um tanto cruel no existencialismo. Se por um lado somos livres, ou fingimos que somos, isto significa que temos poder demais, e como diria o Tio Ben, “com grandes poderes vem grandes responsabilidades”.

A responsabilidade não seria um problema para a maioria das pessoas caso a noção de liberdade do existencialismo não fosse tão ampla e incisiva – Sartre chegou a dizer que o escravo é tão livre quanto o seu senhor. Para o existencialista nada limita a nossa liberdade, para ele, um empresário no Brasil é tão livre para tentar empreender quanto um empresário em Hong Kong. Uma vez que aceitamos esse tipo de definição, não podemos mais colocar a culpa pelas nossas ações em nada. Se somos completamente livres, independentemente livres, nada nem ninguém além de nós mesmos é o responsável pelas escolhas que fazemos.

Mas como eu já falei anteriormente, o existencialista distingue a liberdade ontológica da prática. Eu disse que o empresário no Brasil é tão livre para TENTAR empreender quanto o de Hong Kong, mas não que o empresário no Brasil possui tanta liberdade tal como em Hong Kong. Sartre distinguia entre liberdade para tentar e liberdade para conseguir. Embora o mundo possa parecer hostil ou até a nossa composição física não nos favoreça a algo, nós ainda assim somos livres para tentar fazer o melhor possível com aquilo que nós temos, e por essa liberdade nós temos completa responsabilidade.

Talvez, nesse sentido, uma boa personificação do existencialismo seja o Nick Vujicic, um palestrante e evangelista que nasceu com a síndrome de tetra-amelia, uma rara patologia responsável pela geração de pessoas sem os membros. Na internet está cheio de vídeos do Nick jogando futebol, fazendo natação, fazendo mixagens e dando palestras motivacionais. Nick é um claro exemplo de essência após existência, não há um modo específico para aqueles que nasceram com a síndrome de tetra-amelia viverem. E por mais que Nick possua limitações físicas bem reais, ele é livre para tentar ser o que ele quiser, mesmo que ele não consiga se tornar tudo o que ele quiser.

“Eu tenho a liberdade de pular pela janela e bater meus braços tentando voar. Minha liberdade ontológica é ilimitada não importa o quão limitada minha liberdade prática seja” – William Irwin

Uma coisa interessante sobre o existencialismo é que ele dificilmente apoiaria algum tipo de vitimismo que atualmente se mostra comum entre grupos minoritários oprimidos. Ao contrário, a resposta que um existencialista daria a uma situação de opressão seria o triunfo por cima dela, o existencialista não é aquele que estabelece um objetivo e, ao encontrar um muro no meio do caminho, fica o resto da vida reivindicando que o muro seja demolido por ser injusto e nunca consegue cumprir seus objetivos. O existencialista seria alguém que buscaria um atalho para contornar um muro, tentaria pular o muro, procuraria uma escada para pular o muro, ou caso necessário, passaria a dar ponta-pés no muro visando a sua derrubada.

“Nós podemos lutar para tornar as coisas as mais justas possíveis, mas nós nunca iremos conseguir isso completamente. A vida é o que você faz com o que você tem no lugar em que você está. Não é sobre o que você poderia ter feito se você tivesse diferentes tipos de oportunidades em uma situação diferente” William Irwin

A razão para que o existencialista não se entregue ao vitimismo e ao desespero é simples. Não se constrói um sentido na vida com o desespero, mas apenas com a sua superação. Obviamente alguém que passa uma vida se lamentando pode acabar se tornando um símbolo ou um mártir para alguma causa ou alguém, mas em vida, enquanto pessoa e não opinião, ela não conferiu sentido na sua vida. Morreu no desespero, morreu sem nem tentar alcançar o que queria.

Mais uma vez, Nick Vujivic parece se encaixar perfeitamente nesse contexto. Em, talvez a palestra mais famosa que ele deu, ele se deitou de barriga em uma mesa e disse:

“Há momentos na vida que você irá cair. E você vai sentir que não tem nenhuma força para levantar. Você acha que você tem esperança?… E eu digo eu estou aqui com o rosto virado para baixo e eu não tenho nem braços e nem pernas, então seria impossível me levantar. Mas não é! E Você vê? Eu vou tentar me levantar 100 vezes, e se eu falhar 100 vezes?… Se eu falhar e eu desistir você acha que algum dia vou conseguir me levantar? NÃO!!!! Mas se eu falhar e tentar novamente e novamente e novamente… Então aí eu quero que você saiba que este não é o fim… O que importa é como você vai terminar. Você vai desistir? Ou você vai encontrar a força para se levantar de novo?”

Eu me lembro a minha reação ao assistir o vídeo desta palestra do Nick pela primeira vez, eu senti um pouco de vergonha por mim mesmo. Esses tipos de vídeos costumam vir acompanhados de uma legenda clichê do tipo “Se ele consegue, por que você não?”. Esse tipo de coisa nos agonia, nos dá uma angústia, sentimos que estamos deixando a nossa vida passar por nós, que temos completa responsabilidade por isso, e que não estamos fazendo nada a respeito.

Os existencialistas entendem muito bem que angústia e essa, essa angústia é resultado direto do nosso medo de sermos livres. O homem é livre e ele possui responsabilidade por todas as suas decisões, e a maioria de nós, quando vê alguém que, apesar de todas externalidades negativas possíveis consegue impor sua vontade e perseverar na essência, sentimos que algum segredo misterioso e sujo nosso foi revelado, sentimos que alguma coisa está errada, mal conseguimos suportar dificuldade em dizer que nossa situação é ainda mais especial e que por isso não tentamos fazer o que desejamos fazer.

Para Sartre, os motivos não nos dá consciência para agir, é a consciência que dá aos motivos uma agência. Isso implica dizer que as atitudes não são determinadas por motivos, mas por deliberação consciente sobre o que fazer com os motivos que temos. Sartre dá dois exemplos famosos a respeito. Primeiro imagine alguém viciado em apostas. Após muitos jogos ele decide que irá parar de jogar definitivamente. Uma semana depois ele se encontra no cassino e tem que lidar novamente com a mesma escolha de jogar ou não jogar. Por mais que ele tenha escolhido não jogar mais no passado, agora ele pode mudar de ideia e jogar novamente. Isso acontece porque motivos passados não determinam as ações das pessoas.

Outro exemplo interessante é o medo que podemos sentir perto de um precipício. Para Sartre este medo é gerado pela mera possibilidade que possuímos de utilizar a nossa liberdade para nos atirarmos dele.

O fato é que, como diz o Irwin, a angústia “não é apenas a consciência da minha liberdade, mas medo do que eu posso fazer com ela.”. A angústia que sentimos ao assistir o vídeo do Nick nada mais é do que o medo que temos de, com a nossa liberdade, terminarmos a nossa vida sem conferi-la um sentido.

Mas se tem alguma coisa  que eu também me lembro sobre o vídeo do Nick é que esse sentimento de angústia foi breve e que logo mais eu estava vivendo a minha vida como se não tivesse visto nada daquilo, minha vida, onde eu poderia jogar a culpa por não tentar fazer o que quero fazer em situações exógenas  Por que esse sentimento de angústia dura pouco, porque não sentimos no nosso cotidiano o peso da responsabilidade por  sermos livres?

Não sentimos esse peso no dia a dia porque desenvolvemos instrumentos bastante sofisticados para evitarmos pensar a respeito,  à saber a moralidade e o hábito. Através desses instrumentos podemos evitar a angústia ao fingirmos que possuímos uma natureza fixa, um propósito, uma essência inalienável.

“Para evitar a angústia que vem com a inevitabilidade da escolha nós adotamos a moralidade convencional e desenvolvemos hábitos […] e rotinas que nos permitem pensar que certas coisas simplesmente precisam ser feitas, então evitamos a angústia e escondemos a escolha.” Irwin

Para os existencialistas, não devemos tentar varrer a verdade para debaixo do tapete. Devemos na  verdade buscar lidar com a nossa liberdade, assumir a responsabilidade e lidar com as pedras do caminho de forma digna e criativa. Camus nos lembra que mesmo nas situações de nossas vidas onde não parece haver saída de uma situação que nos agonia, é possível tornar a situação melhor por um processo de absorção. Para ilustrar esse exemplo, Camus utiliza da mitologia de Sísifo, que foi condenado por deus a rolar uma rocha pesada montanha acima todos os dias. Camus nos pergunta: poderia Sísifo empurrar feliz essa rocha? E a resposta de Camus: “a própria luta em direção as alturas é o suficiente para encher o coração do homem”.

O caso aqui é bem claro. Se nenhuma atividade possui sentido por si mesma e tampouco o mundo possui um sentido, e se apenas nós podemos criar um sentido na atividade ou no mundo. Muito mais nos vale tornar uma atividade pesarosa – da qual por mais que tentemos não seremos capazes de evitar ou que evitar nos traria custos desproporcionais – em uma atividade dotada de sentido do que vivermos na  resignação e lamentação de termos que realizar aquela atividade. Esta dica é particularmente útil para aqueles que, por exemplo, não estão no emprego dos seus sonhos ou estão em um processo que, apesar de dispendioso, se mostra necessário para alcançar seus objetivos na vida.

Eu, por exemplo, sou contratado como atendente de telemarketing. Eu poderia achar a minha atividade medíocre ou viver lamentando por não estar no emprego dos meus sonhos… Ou então, eu poderia pensar que eu faço parte de  uma rede que contribui para o bem estar de diversas pessoas, tal como cada um dos envolvidos na produção de um lápis com o qual eu escrevo ou sapato que eu utilizo para caminhar.

Um outro exemplo sobre como transformar uma atividade sem sentido em uma atividade com sentido é o sexo em um relacionamento sério, que expus no meu ultimo Ensaio Sobre o Amor, que você pode ler aqui: https://willianpabloo.wordpress.com/2016/07/10/o-sexo-significa-alguma-coisa-ensaios-sobre-o-amor/

“Se existe alguma coisa característica do existencialismo é a importância da nossa habilidade de reconceber as circunstâncias a tornar as situações significativas” – William Irwin

Anúncios

Sobre Willian Pablo

Nascido em 1997. Poeta e escritor, autor de "O poeta anônimo", o quarto de seus livros de poesia. Centro-direita liberal. Auto-didata em tudo o que o interessa. Amante da retórica e dialética, idealizou e organizou um clube de debates no seu antigo colégio. Fala de si mesmo em terceira pessoa e pretende despejar suas ideias nesse blog.
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s